
Durante muito tempo o único método usado em Psicologia foi a introspecção – observação interior feita pelo próprio sujeito – objecto de várias críticas por aqueles que pretendiam um estatuto de ciência para a Psicologia. Nos finais do século XIX a introspecção é posta em causa e adopta-se o método experimental para o estudo do comportamento. É neste método que os behavioristas vão encontrar o meio para formularem as leis que respondiam ao seu objectivo: prever comportamentos em determinada situação. Reconhecidas as limitações do método experimental, surgem outras metodologias que privilegiam a compreensão do comportamento humano na sua globalidade e complexidade: o método clínico e a observação naturalista;
Testes, inquéritos, entrevistas, escalas de atitudes, são algumas das técnicas usadas em investigação na Psicologia.
Wundt recorreu à introspecção, Behavioristas introduziram o método experimental na investigação do comportamento humano e animal, em algumas pesquisas sobre a percepção e a aprendizagem, os gestaltistas recorreram também ao método experimental socorrendo-se também da introspecção informal. Piaget, nos seus estudos, procurando conhecer o processo do desenvolvimento cognitivo adoptou o método clínico e a observação naturalista. Há uma estreita relação entre o que se pretende conhecer, a população a analisar, as concepções defendidas pelas várias teorias e os métodos utilizados.
Actualmente para se estudar um dado problema recorre-se a vários métodos e técnicas de investigação, procurando assim conhecer os problemas em toda a sua complexidade.
Quatro etapas no método científico:
1. Formulação de uma questão: pode ter origem nas nossas experiências diárias, numa teoria, etc.…
2. Elaboração de uma hipótese: a hipótese é uma resposta provisória à questão formulada na 1ª etapa. É uma suposição, uma tentativa de explicação avançada pelo investigador;
3. Verificação da hipótese: o investigador vai procurar verificar a hipótese recorrendo a métodos e técnicas de observação e experimentação;
4. Formulação de conclusões: o investigador tira conclusões sobre a validade da hipótese que colocou a partir dos resultados da investigação. Se não for confirmada, ter-se-á que colocar uma nova hipótese.
Método Introspectivo
A introspecção é uma análise interior feita pelo próprio sujeito, foi o primeiro método utilizado em psicologia. Wundt desenvolveu-o no seu paradigma – Associacionismo – e recorreu a ele, para de forma sistemática e controlada, estudar os fenómenos da consciência.
O ser humano podia observar directamente todos os fenómenos, menos os que se passam em si próprio. Assim, a introspecção, não tinha qualquer valor científico, dado que o objecto observado e o sujeito que observa são o mesmo. A condição fundamental da observação científica é a distinção clara entre o observador e o observado.
Vantagens: pode ser usado para compreender fenómenos psíquicos de difícil observação externa, embora não se consiga impor como metodologia científica.
Método Experimental
A adopção do método experimental correspondeu a uma necessidade de assegurar o carácter de ciência objectiva e rigorosa à psicologia seguindo o modelo das ciências da natureza. A primeira aplicação do método experimental em psicologia foi realizada por Gustav Fechner. Estudou as sensações, procurando estabelecer a relação entre a intensidade do estímulo e a intensidade da reacção. Mediu, portanto, e comparou os aumentos de estimulação e os de reacção, estabelecendo entre ambas uma relação matemática. Foi o primeiro cientista a preocupar-se com a aplicação dos métodos exactos das ciências da natureza ao estudo das relações entre os processos mentais e os fenómenos físicos. Considerado critério de cientificidade, o método experimental vai ser assumido pelos behavioristas como o instrumento privilegiado para o conhecimento do comportamento humano e animal.
Contudo, esta concepção é limitadora e redutora. O método experimental tem uma aplicação limitada a determinadas áreas da investigação: no funcionamento do sistema nervoso, no estudo da percepção, bem como em determinados aspectos da aprendizagem, memória, motivação e inteligência. As várias estapas da elaboração de um plano experimental são: hipótese prévia, experimentação, controlo experimental, grupo de controlo e grupo experimental, amostra significativa e a generalização dos resultados.
De entre as limitações metodológicas podemos destacar: dificuldades em isolar as variáveis que interferem no comportamento, em controlar atitudes e expectativas dos sujeitos, em neutralizar os efeitos do experimentador. Para além destas limitações metodológicas, colocam-se questões éticas quando a experimentação põe em causa a integridade física ou psicológica de um ser humano.
Vantagens: permite inferir relações causais entre a variável independente e a dependente, isto é, entre um comportamento e outro; permite a formulação de leis gerais sobre o comportamento.
Pode ser encarada como um método, um instrumento, ou uma etapa de outros métodos. O seu objecto é a análise do comportamento de um sujeito ou de um grupo, sendo essencial recorrer a várias observações sistemáticas, de modo a avaliar a observação do comportamento do mesmo. O método experimental, sobretudo na fase da experimentação, apresenta muitas limitações. Assim o psicólogo tem de recorrer à observação sistemática como método, realizando tarefas idênticas às do experimentador: formulação de hipóteses prévias, controlo e generalização dos resultados. Tal como na experimentação, pode ocorrer no laboratório ou em contexto ecológico. Por isso distinguimos observação laboratorial e observação naturalista.
Observação laboratorial
Recorrem a esta quando precisam de controlar alguns factores que influenciam o comportamento que está a ser estudado. O ambiente e a situação são determinados pelo investigador, para melhor controlar as variáveis intervenientes. Com o objectivo de assegurar um maior nível de sensibilidade e rigor no acto de observar, os investigadores utilizam vários tipos de registo das observações; os instrumentos podem ser grelhas de observações, câmaras de vídeo e instrumentos de registo físico.
Observação naturalista
Consiste na observação de comportamentos dos sujeitos no seu ambiente natural. É também designada observação ecológica, pelo facto de o indivíduo ser observado no seu contexto, privilegiando assim, o binómio indivíduo-meio. Os registos destas observações podem ser anotações escritas, fotografias, registos áudio e vídeo.
Método Clínico
Caracteriza-se por abranger um conjunto de metodologias e de técnicas diversificadas, privilegiadamente de índole qualitativa que pretendem estudar em profundidade um indivíduo, um assunto ou um problema. A psicologia, integrando-se no movimento que envolveu as ciências sociais e humanas, ao pretender afirmar-se como conhecimento objectivo e rigoroso, procurou utilizar métodos e técnicas semelhantes às utilizadas pelas ciências da natureza. O método clínico vai surgir como reacção ao método experimental, mais interessado em resultados finais quantitativos do que na análise do processo em estudo. O método clínico visa a compreensão global do sujeito tendo em conta a sua personalidade como um todo: todas as variáveis que afectam a pessoa são consideradas. Por isso o psicólogo clínico interessa-se pelo passado do sujeito, as suas perspectivas de futuro, os seus valores, as suas crenças, os seus afectos, os seus projectos.
Freud, numa atitude de investigador clínico, escutava, compreendia e aprendia com os seus pacientes.
Piaget, interessado em compreender como se desenvolvia a inteligência na criança, não fez estudos em extensas amostras. Pelo contrário, observou e analisou algumas crianças individualmente e em grupo. Não eram pois, as respostas dadas que interessavam a Piaget, mas antes o modo como as crianças tinham chegado a elas, isto é, o processo. Por isso, era necessário criar um clima interactivo, de confiança, de segurança.
O método clínico aplica-se a uma metodologia para investigar e intervir, que pode incidir sobre sujeitos que têm, ou não, problemas psicológicos, em pessoas individualmente ou em grupo. Para além disso, os estudos podem ser breves ou longos.
O investigador, no método clínico, pode empregar instrumentos e estratégias metodológicos que lhe pareçam mais adequados ao objecto ou às hipóteses em estudo. Assim, é inerente a este método a intersubjectividade, na medida em que o psicólogo partilha com o sujeito os seus problemas e preocupações, o uso da intuição e da introspecção.
Uma das condições necessárias no método clínico é a criação de um clima de empatia, segurança e compreensão entre os intervenientes. A utilização do método clínico permite aprofundar o conhecimento de alguns conteúdos de difícil acesso, como sentimentos pessoais e pensamentos íntimos.
As técnicas são:
· Anamnese e dados biográficos;
· Entrevista clínica;
· Observação clínica;
· Os testes no método clínico.
Método Psicanalítico
O método psicanalítico tem o seu início na compreensão da histeria. A hipnose e seu procedimento catártico são instrumentos para que o sujeito possa recordar eventos esquecidos, que estão na base do sintoma para liberar os afectos perturbadores relacionados a esses eventos. Dessa experiência, Freud (1903/1990) descobre que as amnésias (esquecimentos) são resultantes de um processo chamado recalque, que separa o desprazer da ideia correspondente, gerando resistência para que se reproduza a associação entre a ideia e esse afecto. Entre o material recalcado e a consciência se produzem desfigurações que guardam relação com o desfigurado e que permitem que o material inconsciente torne-se consciente.
Este recorrido entre o consciente e o inconsciente é alcançado por meio da interpretação, que Freud (1903/1990) tem definido como uma arte destinada a extrair do mineral em bruto das ocorrências não deliberadas o conteúdo metálico de pensamentos reprimidos. Estamos em 1903, quando Freud (1990) começa a lançar as bases de seu método revolucionário de interpretação do material inconsciente encontrado sob a acção do recalque. O trabalho interpretativo que em 1895 recai, principalmente, sobre as acções sintomáticas, é ampliado para os sonhos em 1900. Em 1901, Freud (1990) “descobre” a transferência e, desse modo, a interpretação recai sobre a análise da transferência, ou seja, dos sentimentos depositados pelo analisando no analista, e que poderiam transformar-se em um obstáculo para a continuidade do tratamento.
Cabe ressaltar que os casos das mulheres estudados por Freud e Breuer nos Estudos sobre a Histeria, bem como a análise de seus sonhos, através da correspondência com Fliess, e o fracasso do caso Dora, demonstram como o método de investigação da psicanálise vai proporcionando a montagem da teoria psicanalítica. E mais, ao escrever os historiais clínicos e a interpretação dos sonhos, ensina-nos a correlação entre a clínica e a teoria. Seu trabalho clínico é questionado e revisado, gerando nova compreensão. Aparece, claramente, a superposição entre o trabalho investigativo e a aplicação do método de tratamento, gerando a nova disciplina científica, a Psicanálise.
Interpretar, para Freud, então, é recorrer do consciente ao inconsciente os caminhos que resultam na produção do fenómeno. A arte de interpretar é a técnica que consiste em comunicar ao paciente algum sentido sobre o que é produzido a partir do inconsciente. Interpretar não tem como objectivo um sentido único e final de compreensão, senão uma visão possível acerca de um objecto.
Desta forma, destacamos a arte da interpretação como uma noção de trabalho, de trabalho de pesquisa que implica uma metodologia da compreensão de um fenómeno através da explicação do seu significado. O trabalho nessa compreensão assemelha-se ao trabalho de elaboração de um luto, no sentido de que há um desligamento, um desinvestimento da energia e do investimento posto no objecto. Ablösung é desligar, romper as amarras, inclusive a ruptura de enlaces, mas também indica reposição, troca. Assim, quando se efectua um trabalho de luto, desfazem-se os investimentos e destecem-se as tramas que envolvem o sujeito com o outro – objecto.